Comunidade
Terapêutica: Utilização de desportos de combate em contexto de
institucionalização.
RESUMO
Este artigo dá conta
de um projecto desenvolvido numa comunidade terapêutica de regime fechado e que
lida com a problemática da toxicodependência. O projecto é de cariz desportivo,
nomeadamente defesa pessoal, boxe e Kickboxing. O que se pretende compreender é
se este tipo de desporto pode ser considerado como uma mais-valia para a
população residente na instituição e se a mesma população encara este projecto
contendo em si aspectos de âmbito educativo.
Posto
isto, este artigo parte da explicação e descrição das actividades, procurando
interligar várias temáticas que estão subjacentes aos sujeitos. Adopta-se como
recurso testemunhos escritos e notas de terreno, assim como, uma breve
contextualização teórica que possa permitir compreender melhor os resultados
obtidos e a metodologia utilizada, assim como as conclusões retiradas de todo
este processo.
Palavras-chave: Comunidade
Terapêutica; Institucionalização; Desportos de Combate; reeducação.
RÉSUMÉ
Cet article du compte d'un projet développé dans une communauté
thérapeutique de régime fermé interne et qui opere avec la problématique de la
toxicomanie. Le projet est de plan sportif, notamment la défense personnel,
boxe et Kickboxing. Si qui prétend comprendre c'est si ce type de sport peut
être considéré comme une plus-value et
Bénéfiques e pour la population résidante dans l'institution et si le même
population envisage ce projet en contenant dans lui aspects de contexte
éducatif.
Ceci, cet article part de
l'explication et de la description des activités, en cherchant interconnecter
sieurs thématiques ils que sont sous-jacents aux sujets. Il s'adopte des
ressource homologations écrites et notes de terrain, ainsi que, un brèves
contextualizacion théoriques qui puisse permettre comprendre mieux les
résultats obtenus et la méthodologie utilisée, ainsi que les conclusions
retenus.
Mots-clés: Communauté thérapeutique;
Institutionnalisation; Sports de combat; rééducation.
Abstract
This article reports a project developed in a therapeutic community
secure detention and dealing with the problem of drug addiction. The project is
sporty, including self-defense, boxing and kickboxing. The aim is to understand
if this kind of sport can be considered as an asset for the living population
in the institution and if the same population views this project containing
itself aspects in the educative ambit.
That said, this article begins with the explanation and description of
activities, searching to connect various themes underlying the subject. As a
resource is adopted written testimonials, field notes, as well as a brief
theoretical context that would enable better understanding of the results and
used methodology, as well as conclusions drawn from all this process.
Keywords: Therapeutic Community;
Institutionalization; Combat Sports; reeducation.
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como
objectivo tentar perceber como é que a prática desportiva, designadamente os
desportos de combate (boxe; kickboxing ou defesa pessoal) são vivenciados pelos
utentes de uma Comunidade Terapêutica. A questão de fundo em discussão é a de
equacionar se estes desportos podem ser considerados como uma alternativa de
reeducação, nomeadamente se a sua vivência é representada significativamente
pelos utentes como uma experiência educativa com implicações na transformação
de si e das suas relações com os outros e com a própria instituição terapêutica
aí seguido.
Portanto, o que se
pretende fazer, é dar a conhecer e problematizar um trabalho de cariz
desportivo que tem vindo a ser desenvolvido ao longo dos últimos 4 anos e ao
longo dos quais tem estado em constante mutação, tendo em consideração que este
projecto se vem desenvolvendo com uma população com características muito
próprias (os utentes da comunidade tanto estão em contexto de tratamento como
de repente o podem abandonar). A organização destas actividades foi pensada e
realizada em regime de voluntariado por um elemento que faz parte da equipa
técnica da instituição e que aí desempenha as funções como monitor, cujas
funções passam por fazer cumprir o regulamento interno da instituição, o
cumprimento de horários, a mediação de conflitos existentes entre residentes, entre
outras. E tem o apoio do Director da Comunidade Terapêutica (através do Projecto
Convívios Fraternos Reconstruir II). A Don Kinguell Academy e a Associação
Portuguesa de Técnicas de Defesa e Combate Urbano e com a Arena de Matosinhos, com o seu representante César Moreira.
O facto de este
trabalho estar a ser desenvolvido numa Comunidade
terapêutica levanta, desde logo, um conjunto de questões, no domínio da ética, da
segurança e da educação, As questões em causa merecem uma análise séria fundada
em dados empíricos recolhidos através da observação participante e do recurso a
testemunhos escritos dos próprios participantes nestas actividades desportivas.
CONTEXTUALIZANDO A INSTITUIÇÃO E O
PROJECTO
A instituição em que este projecto
se desenvolve está localizada na Vila de Avanca no distrito de Aveiro. É uma
comunidade terapêutica que está vocacionada para lidar com a problemática da toxicodependência.
De acordo com a Lei que regulamenta as comunidades terapêuticas estas destinam-se a «assegurar
a prestação de cuidados a toxicodependentes que necessitem de internamento
prolongado, com apoio psicoterapêutico, sob supervisão psiquiátrica, com vista,
designadamente, à criação de condições para a sua reinserção social». (Artigo 5º
Comunidades terapêuticas)
O
tempo de tratamento é de aproximadamente 12 meses, sendo que, numa primeira
fase os utentes estão 6 meses em regime de internamento fechado, só podendo
sair 3 horas por semana acompanhados pelo monitor. Atendendo a que, como se
sugere no discurso programático da instituição, qualquer droga, depois de criar dependência no consumidor, geralmente
destrói toda a sua vida nas dimensões física, social, profissional,
familiar e religiosa, este programa terapêutico designado Convívios –
Fraternos II – Reconstruir, procura, usando o método de tratamento Bio –
psicossocial, e ajudado por técnicos preparados e vocacionados para o problema
a RECONSTRUIR a vida do toxicómano usando para o efeito técnicas
adaptadas e adequadas, destruindo medos e indiferenças, enfraquecendo
ansiedades e reconstruindo a esperança e a alegria de viver. Este programa
terapêutico e específico tem a duração de 12 meses e durante todo o seu
percurso o utente terá que continuamente fazer opções e a sua liberdade será
sempre respeitada. É neste sentido e à semelhança de outros projectos
terapêuticos, em que se enquadra esta instituição. A qual podemos pensar como
uma instituição total. Com a separação entre os primeiros 6 meses de tratamento
em regime fechado, que para este trabalho é o ponto central. A exemplo de como
este autor refere: «em primeiro lugar, todos os aspectos da vida são realizados
no mesmo local e sob uma única autoridade. Em segundo lugar, cada fase diária
da actividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um
grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas tratadas da mesma
forma e obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto. Em terceiro lugar,
todas as actividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois
uma actividade leva, em tempo predeterminado, à seguinte, e toda sequência de
actividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um
grupo de funcionários.» (Goffman, 2001:17, 18)
Tal
como em outras instituições semelhantes, todo este trabalho de “vigilância” das
tarefas é executado maioritariamente pelos monitores. Sem esquecer que os
mesmos são supervisionados hierarquicamente.
Tendo em conta o
passado recente dos sujeitos e a sua condição como residentes de uma comunidade
terapêutica. Segundo o sociólogo francês Robert Castel (1990) «podemos entender
a exclusão social como o ponto máximo atingível no decurso da marginalização,
sendo este, um processo no qual o indivíduo se vai progressivamente afastando
da sociedade através de rupturas consecutivas com a mesma.»
Este projecto foi
criado em 2005. Inicialmente, um dos objectivos era simplesmente ocupar os
tempos livres dos residentes entre as 17 horas e as 19.30 horas principalmente
enquanto os residentes estão em tratamento, em que numa primeira fase o prazo
médio de permanência na instituição é de 5 a 6 meses. Um outro objectivo prendeu-se
com o alargamento da diversidade e da oferta de actividades desportivas na
Comunidade Terapêutica.
Tendo em conta que a única
prática desportiva existente eram os jogos de futebol quase diários, mas que raramente
chegavam ao fim, por diversas razões, tais como: conflitos que se geravam entre
elementos da mesma equipa e com os adversários. Com efeito muitos dos problemas
e conflitos entre residentes eram levados para o terreno de jogo e
consequentemente a maior parte dos jogos de futebol acabava com agressões
físicas, sendo que as agressões verbais eram uma constante. Assim, o que
deveria ser um sítio onde os residentes pudessem praticar desporto de forma
saudável, um espaço de convívio, rapidamente se tornava num local de
agressividade.
Como técnico, comecei
igualmente a perceber algumas estratégias usadas por alguns residentes para
manipular os castigos, nomeadamente os que eram aplicados em casos de agressão
física. A título de exemplo refira-se que uma agressão física numa situação
fora do campo de futebol podia ser punida com 2 a 3 meses de privação das
saídas semanais com o grupo, enquanto, que se a agressão acontecesse num jogo
de futebol seria apenas punida com a privação de jogar futebol durante 15 dias
a um mês.
Outros objectivos que
estiveram subjacentes à promoção destas actividades desportivas passavam por
procurar promover actividades (ex. Estágios) onde existisse a possibilidade de
interacção com a população civil, policial e elementos de outras modalidades
ligadas às artes marciais e desportos de combate. O que constituiria uma
ruptura significativa tendo em conta o regime fechado a que estes utentes estão
sujeitos, e atendendo a que estas actividades se realizariam fora do contexto
de comunidade terapêutica. Por fim, um outro objectivo supunha a possibilidade
dos residentes, depois de acabarem o seu tratamento, poderem dar continuidade a
estas actividades desportivas em ginásios, academias de desportos de combate,
ou desenvolver outras actividades físicas que os indivíduos considerassem
importantes para si.
Assim, tendo
em mente, estes objectivos, decidi
com um Mestre de artes de combate iniciar com um número relativamente pequeno
de residentes os treinos de defesa pessoal e com o treinador de boxe Fenando Kinguell.
Como estes treinos requerem muita disciplina, cumprimento rígido de horários,
atitude positiva face ao grupo, esforço físico e alguma técnica, (de salientar
que os primeiros indivíduos chegavam a tratamento numa condição física
altamente debilitada) esta prática permitiu inicialmente o desenvolvimento do
corpo e resistência. Com o passar do tempo criou-se um grupo de 15 indivíduos a
treinar 3 vezes por semana. Este grupo era constituído só por toxicodependentes
em recuperação, sendo que um dos elementos era menor de idade. Todo este
trabalho se enquadrava no pressuposto que estas actividades poderiam ser consideradas
actividades lúdicas, terapêuticas ou educativas.
DINÂMICA DOS TREINOS:
Os treinos começam às 17.30 horas em ponto e
como o ginásio onde são feitos os exercícios é simultaneamente a sala de
terapia de grupo e sala de convívio, às 17.30 deve estar arrumada e preparada
para os treinos. Toda a arrumação inicial e final do espaço é feita em grupo
com a participação de todos. O residente que não chegar a horas tem de fazer
cerca de 20 a 30 flexões, se repetir posteriormente o atraso o grupo faz em
conjunto o mesmo número de flexões. O que se pretende com esta medida é estabelecer
regras comuns de funcionamento procurando que qualquer residente que chega atrasado compreenda as
implicações e as responsabilidades de uma actividade de grupo. Não são igualmente permitidos
brincos, pulseiras, fios ao pescoço, por questões de segurança para o próprio
residente, tendo em conta o desporto em causa. Todo este ritual começa com a
saudação muito comum em muitos estilos de artes marciais, que é baixar a cabeça
e dizer OSS é uma saudação de respeito na sala de treino, para com o instrutor
e respectivos colegas de treino, esta saudação é sempre feita no inicio e fim
do treino. Mesmo no decorrer do treino os residentes devem ter regras de conduta
que visam promover a entreajuda e respeito pelo outro.
Para
além destes aspectos já mencionados e a forma como foi organizada esta
actividade, tinha subjacente uma ideia central: quebrar a rotina fazer algo de
novo e trabalhar em conjunto para que os residentes pudessem usufruir de mais
algumas saídas ao exterior da Comunidade Terapêutica
para participarem numa iniciativa de cariz no âmbito desportivo, nomeadamente em
estágios de defesa pessoal e em torneios de kickboxing e boxe, rompendo claramente com o sistema
rígido e as normas do dia-a-dia passado em comunidade.
Apresentada toda a dinâmica inerente ao
projecto desportivo, propomo-nos a pensar este tipo de modalidade desportiva
sob o ponto de vista de uma possível transformação do indivíduo, através da
análise dos testemunhos dos utentes da Comunidade Terapêutica que se envolveram
nesta prática desportiva.
Segundo, Paul Willis, «A vida quotidiana implica uma produção humana, habitual,
de sentido. Os seres humanos são levados não apenas à luta pela sobrevivência
por meio da produção e da reprodução das condições materiais de existência, mas
também por intermédio da compreensão do mundo e de seu lugar nele. Em outras
palavras, do entendimento de si mesmos
em seu próprio mundo cultural…» (in entrevista, 2005). É neste sentido que a
partir deste momento começamos a escrever sobre residentes/atletas. Procuramos
de uma forma clara que o sujeito se aproprie não só de uma condição de residente
numa Comunidade Terapêutica, mas tenha igualmente a condição de atleta. Nesta
perspectiva surge este testemunho do A.F de 28 anos.
«… Sou um praticante inicial, mas julgo que com o decorrer do tempo, com
trabalho e eficácia suponho que poderei ir mais além. Na questão do estágio em
que participei, para mim foi uma grande experiência na minha vida. Nesse
estágio em que participei, eu e outros praticantes, noto que estou a começar a
conhecer-me melhor e a gostar mais de mim e também a integrar-me a nível social
com outras pessoas…» (26 Abril 2008).
«Assim podemos considerar que é o
resultado dos julgamentos que o sujeito faz acerca de si próprio, de que
decorrem atribuições de positivo ou de negativo, perante os aspectos
considerados relevantes da sua identidade. A auto-estima encontra-se, deste
modo, associada aos fenómenos da compensação ou de descompensação emocional do
indivíduo» (Vaz Serra, 1986, cit in Silva, 1998)
Desta forma a auto-estima
é uma das questões que mais vezes é referida pelos residentes/atletas, tanto de
forma explícita, como implícita. Assim, o N.G de 25 anos refere:
«…
Para mim esta passagem pelo kickboxing e boxe
foi fantástica. Pois elevou muito a minha auto-estima e a gostar mais do
meu corpo …» (17
de Junho de 2009).
Outro residente/atleta, F.B de 17
anos escreve:
«…
Este desporto fez-me sentir cem por cento bem: interiormente, psicologicamente,
faz-me sentir mais seguro comigo…» (17
de Junho de 2009).
Podemos
considerar igualmente importante e que é mencionado nos vários registos que está
relacionado com o desempenho que os residentes/atletas mostram nos estágios ou
nos combates de Kickboxing. Segundo este autor: «Quando um indivíduo desempenha
um papel exige implicitamente dos seus espectadores que levem a sério a impressão
que neles procura suscitar» (Goffman (1993). Os sujeitos quando vão desempenhar
as suas funções para as quais treinaram, fazem-no no intuito de mostrar o que
sabem fazer e fazem-no com seriedade.
O
residente H.C, 19 anos, dá-nos conta de um discurso em que podemos inferir a
atitude do mesmo face ao empenho e o desempenho, na sua reflexão menciona que:
«…foi uma das melhores sensações que já tive,
estar rodeado de alguns mestres de artes diferentes e a vontade que eles tinham
para ensinar e a mesma vontade que alguns tinham em receber o que nos
transmitiam, aquele ambiente de estarmos ali todos para o mesmo, com esforço,
força e vontade é daquelas sensações únicas e boas que quase não há palavras
para o descrever…» (13 Dezembro 2008).
Numa
outra dimensão e Segundo este autor, «o auto conceito tem ligado a si aspectos
cognitivos, afectivos e motores que o definem. A capacidade que o ser humano
tem de se auto-analisar, observando as suas próprias acções e comportamentos
específicos do dia-a-dia, assim como os comportamentos dos outros em relação a
si, contribuem para a formação do auto-conceito. Esta formação não é
concretizada apenas pela simples enumeração dos comportamentos observáveis.
Resulta antes de um processo simbólico, em que determinada estrutura pessoal de
forma com o auxílio da linguagem, que atribui designações a classes de
comportamentos, procurando-as definir e englobar» (Vaz Serra, 1986, cit in
Silva, 1988)
Importa
por isso, reflectir sobre a dimensão que o indivíduo dá a si próprio,
relativamente à sua auto-análise, O B.R
escreve:
«…comecei a
sentir-me mais capaz, mais seguro do que era porque sempre fui uma pessoa que
nunca acreditei que era capaz e agora está á vista…» (28 de Abril de 2008)
Os
hábitos de higiene são igualmente alvo de preocupação e mudança, a maior parte
dos residentes/ atletas entra na Comunidade Terapêutica com algum défice de
hábitos de higiene, uma das regras é o cuidado que os sujeitos devem ter quando
vão treinar, devido ao esforço físico que vão realizar. Esta nota de terreno
ilustra essa preocupação por parte do instrutor:
«Ao
longo dos treinos sinto a necessidade de alertar não de uma forma muito
directa, que os atletas devem ter cuidado com a higiene pessoal, vamos ter uma
1 hora e meia de treino, onde se vai transpirar muito. Assim, todos os atletas
devem apresentar-se na sala de treino com os pés lavados, justifico esta medida
pelo uso dos colchões para exercícios no chão e o desconforto que para mim é perceber
que alguns atletas não têm cuidado com a sua higiene pessoal.» (Nota de terreno 02-01-08).
Várias vezes, este
tipo de diálogo é feito em grupo sem falar para ninguém em particular, mas é
comum acontecer em quase todos os grupos que foram variando ao longo do tempo.
Transformações na relação com a instituição (relação com as normas da instituição, relação com o tratamento)
Neste outro
testemunho, aparece um dos motivos para a inclusão deste desporto neste lugar
específico e que certa forma é semelhante a outros testemunhos. Assim, o B.R
escreve;
«…
Quanto a mim, começar a ir ao treino deu-me mais motivação tanto para continuar
o tratamento, como para levar as aulas até ao fim…» (28 de Abril
2008)
Este é um dos vários
factores que contribuem para que existam dentro da instituição estas actividades.
Tendo em conta o que foi escrito na introdução no que respeita à dinâmica de
uma instituição total e tudo o que lhe está subjacente.
Depois de todas as
tarefas rotineiras do dia-a-dia, pelo menos 3 vezes por semana os sujeitos
podem usufruir de algo, neste caso os treinos que nada têm a ver com o contexto
e a inerente repetição de actividades. Relativamente às normas instituídas pelo
regulamento da comunidade terapêutica, está muito próximo do que Tiago Neves
refere no seu trabalho: «… Certamente que os educandos fazem um aproveitamento
oportunista de lacunas e falhas ocasionais de vigilância da equipa supervisora.
Na verdade, porém, uma boa parte das oportunidades mínimas surge em resultado
sistemático dos educandos para a sua criação…» (Neves, Tiago (2008:166). Na
comunidade terapêutica a relação dos residentes perante as normas instituídas
são largamente quebradas, desde o incumprimento de horários, até à introdução
de drogas ou álcool que eventualmente tenham oportunidade para o fazer. É o
jogo de “rato” e do “gato” em que cada um sabe o que tem de fazer e o lugar que
ocupa residentes e monitores. Todavia, num universo de 28 residentes alguns
optam por cumprir minimamente com o que está instituído e é normativo. Porém,
nas actividades desportivas existe um regulamento interno ao qual os residentes
estão sujeitos, mas podemos pensar numa relação diferente face ao mesmo
regulamento. Assim, passo a transcrever um dos episódios que aconteceram em que
o regulamento do projecto desportivo foi usado:
No dia 21-08-09 os residentes/atletas W, E e J. ficaram privados durante 2 semanas de treinar qualquer tipo de actividade relacionada com Associação de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, por terem consumindo cannabis.
«Esta
decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que
está previsto no regulamento. (Artigo 5)
Depois
de ter tomado decisão de aplicar aos 3 residentes 2 semanas de privação nos
treinos, o J. mostrava claramente que tinha ficado desiludido com a medida e
com ele próprio, assistiu ao treino sempre sentado e a dada altura referiu que
aceita mais depressa o castigo aplicado pela instituição (um mês de atraso no
tempo de tratamento), do que a privação de treinar. Já os outros dois
residentes teceram alguns comentários sobre a medida aplicada, mas lidaram de
outra forma, ou sem grande interesse.»
(Nota de terreno dia 23-09-09).
Esta nota de terreno
vai ser novamente usada mais à frente. Importa porém perceber a relação que os
residentes/atletas têm com as normas e as medidas punitivas que são impostas
pela Comunidade Terapêutica. E as medidas que são tomadas nos que respeita ao
projecto desportivo. Segundo o sujeito a medida aplicada pela instituição tem
menos valor do que a medida tomada pelo instrutor. De referir que este
regulamento interno inerente à prática desportiva foi discutido e aceite por
todos os sujeitos. Logo, a aceitação da medida de privação de treinar é aceite
como estava estabelecido e não como uma medida imposta na qual os sujeitos não
têm nenhuma influência ou participação.
Transformações nas Relações
interpessoais:
Como já foi referido,
importava perceber como é que os residentes/atletas se integravam depois de
devidamente preparados técnica e fisicamente nos estágios que eram feitos pela
associação desportiva. O princípio foi levar os indivíduos não como residentes,
mas como atletas, para que tal fosse possível existiam algumas regras básicas,
a primeira era a forma como me tratavam, ou seja, quando fossemos para os
estágios acabava a relação monitor/residente e começava a relação
instrutor/atleta.
Segundo este autor, «Uma
interacção pode ser definida como toda interacção que ocorre em qualquer
ocasião, quando um conjunto de indivíduos, uns se encontra na presença imediata
dos outros…» (Goffman, 1983:23). Foi neste sentido que procuramos que os
residentes interagissem com outras pessoas que não sabiam de onde vinham os
residentes e qual a situação em que se encontravam (Comunidade Terapêutica).
O B.F 22 anos, refere:
«…
O estágio para mim, foi muito interessante pois apreendi coisas novas e conheci
outro tipo de gente com outros tipos de modalidades…» (26 Abril 2008).
Estes estágios são sempre realizados em conjunto com vários elementos de outras artes marciais, incluindo alguns elementos das forças de segurança. Quando vamos para estas actividades os residentes não sabem quem é quem, o que sabem é que vão estar outros atletas, importa salientar através de mais esta transcrição o valor que o residente/atleta dá ao evento. O A.P 17 anos escreve;
«… Gostei muito, conheci novas pessoas, convivi
com eles e praticamos desporto juntos… foi altamente…» (26 Abril 2008).
Por
outro lado os atletas que não fazem parte da Comunidade terapêutica também não
sabem de onde vêm estes residentes/atletas.
Contudo,
existe sempre a preocupação com a imprevisibilidade do que possa acontecer
nestas actividades no exterior da Comunidade Terapêutica, nesta nota de terreno
dá-se conta do que é referido:
«Depois de preparar todos os residentes,
tanto fisicamente, como psicologicamente para o estágio, tenho algum medo sobre
como irá decorrer o evento. Será que algum residente vai aproveitar para fugir?
Terão acesso a drogas? Será que vão estar a altura e que não vão ter comportamentos
negativos, como indisciplina, etc.»
(Nota terreno 22-04-08).
Este
tipo de preocupação é constante. Todavia;
«O estágio correu de forma
espectacular, todos os residentes estiveram à altura tanto fisicamente como em
saber estar em grupo. Fico feliz pelo facto de o diploma de participação que
ganharam foi de facto ganho e não um mero prémio de estar por estar.» (Nota de terreno 26-04-08).
Esta
nota de terreno esteve sempre presente em todas as actividades em que
participamos. Assim como, os sentimentos de quem ficava com a responsabilidade
de levar os residentes aos eventos e que tudo corresse da melhor forma possível
para que fosse justificada a continuidade à direcção e equipa técnica da
Comunidade Terapêutica.
Na
relação com redes exteriores à Comunidade Terapêutica, importa salientar que
todos os residentes/atletas são membros associados da Associação Portuguesa de
Técnicas de Defesa e Combate Urbano, beneficiando de todos os direitos
previstos no regulamento da associação, assim como os respectivos deveres.
Maioritariamente, os sujeitos fazem parte desta associação, sendo que oito
deles são atletas federados na Federação Portuguesa de Kickboxing e MuayThai e
Boxe. Para poderem competir nas galas em que participaram e nas quais tinham de
estar inscritos neste caso na Federação Portuguesa de Kickboxing e MuayThai. O que confere uma sensação de pertença a outras instituições
que não passem só pela condição de residentes de uma Comunidade Terapêutica.
Contudo, este
trabalho deve ser analisado com duas populações com características diferentes.
Num primeiro momento o trabalho é feito só com indivíduos em tratamento
inerente à toxicodependência.
Até que a realidade
da população que é recebida sofreu o que considero uma grande mutação em termos
de problemáticas. Ou seja, a partir do princípio do ano de 2009 a Comunidade Terapêutica
tem como residentes não só indivíduos toxicodependentes, mas também um número
elevado de menores de idade. Toda esta realidade teve igualmente mutações nas
práticas desportivas e mais concretamente com a dinâmica a desenvolver dentro dos
treinos e fora deles dentro da Comunidade Terapêutica. Desde logo, o interesse
na defesa pessoal. Chamou-nos atenção o que os jovens faziam depois dos treinos
uns aos outros em actos de brincadeira.
Para contextualizar:
a defesa pessoal que é ministrada tem como base, o boxe, as luxações,
estrangulamentos, imobilizações e a luta de rua. Se com os elementos
toxicodependentes estas práticas já colocavam sérias duvidas e interrogações,
com os menores de idade acabamos por confirmar que este não era o melhor
caminho nem tinha fundamento ético e da própria segurança, tanto para os
residentes como mais tarde na saída da comunidade e na inserção nos seus locais
de onde são oriundos. Assim, começaram a ser ministrados treinos completamente
diferentes, mais ligados à preparação física, boxe e Kickboxing. Por se
Considerar que estas práticas se inserem mais no âmbito desportivo e de
competição.
Os resultados foram
igualmente positivos como se pode observar através destes testemunhos. Os dois
residentes/atletas em causa participaram numa gala internacional de Kickboxing na Arena de Matosinhos.
Assim, o N.G 25 anos refere
«…
Para mim esta passagem pelo kickboxing foi fantástica. Pois elevou muito a
minha auto-estima e a gostar mais do meu corpo (…) a minha inclusão social
também foi muito positiva pois o gosto pelo combate fez com que a inclusão
social entre nós seja mais fácil (…)
quanto ao combate senti algo que não
consigo bem passar para o papel, só sei que a sensação de calcar um ringue é
formidável e me fez sentir uma pessoa sem qualquer tipo de problema social…»
(17 de Junho de 2009).
Outro dos residentes/atletas,
este mais jovem e um dos primeiros menores de idade a entrar na comunidade
terapêutica. Faz esta reflexão sobre o que foi a gala e a sua participação como
atleta na mesma. O F.C. 17 anos escreve sobre este dia e experiência:
«Para
mim ter começado a praticar este desporto foi muito bom e porquê? Porque é uma
ideia que já tenho há muito tempo. (…) Este desporto fez-me sentir cem por
cento bem: interiormente, psicologicamente, faz-me sentir mais seguro comigo
mesmo e ao mesmo tempo com mais respeito, tanto para comigo como para com os
outros. (…) Desde que comecei este desporto eu já ganhei mais corpo e mais
personalidade. (…) O que se sente quando se vai a combate não é medo, comigo
foi assim, eu senti muita curiosidade, descoberta e adrenalina. È praticamente
isto que uma pessoa sente quando gosta realmente do que faz…» (21 de Junho de 2009).
São alguns destes
testemunhos que evidenciam alguns dos benefícios destes desportos em contexto
de tratamento e ao mesmo tempo os residentes/atletas puderem participar em algo
que fazia parte do imaginário. Como escrevi antes, estes dois residentes
combateram com atletas amadores mas já com longa experiência no desporto de
combate e, não menos importante num local (Arena de Matosinhos) que neste
momento é dos locais onde se disputam vários títulos nacionais e
internacionais.
Todavia, no inicio
desta actividade desportiva, um dos factores que contribuiu para a decisão de
implementar este projecto na Comunidade Terapêutica, foi tentar compreender se
com as regras muito especificas a que este tipo de desporto eventualmente está
sujeito, os residentes em contexto de tratamento conseguiam transportar a
mudança de comportamentos para a sua vida em comunidade; ou seja praticar
desporto, não consumir drogas e não ter atitudes violentas depois de aprender
algumas técnicas de combate. Assim, foi adaptado o regulamento interno da
Associação Portuguesa de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, assim como o
trabalho em equipa com o treinador Fernando Kinguell, ao funcionamento das
regras que considero como base neste trabalho. Sem dúvida que o que tenciono
trabalhar está relacionado com os pontos 5 e 8 do regulamento Interno.
«Ponto 5º O consumo de
substâncias proibidas ou alteradoras de comportamento, assim, como o uso
excessivo de álcool, levará à exclusão ou não, estando dependente da avaliação
da direcção;
Ponto 8º Tendo em conta a
situação actual dos atletas de T.D.C.U do Dojo de Avanca, os mesmos se usarem
atitudes agressivas, violentas ou de má conduta, estão sujeitos a ficar
privados dos treinos e qualquer outra actividade relacionada. Será o instrutor a
determinar a sanção a aplicar;»
O
mesmo foi aceite e assinado pelos residentes/atletas. Ficam aqui alguns exemplos
(notas de terreno) de situações que ocorreram em que face a algumas atitudes
dos residentes, os pontos 5 e 8 que constam no regulamento a que estão sujeitos
tiveram ser tomadas algumas medidas. Importava da mesma forma perceber como
reagiam às medidas que foram tomadas.
No dia 21-08-09 os residentes/atletas W, E e J. ficaram privados durante 2 semanas de treinar qualquer tipo de actividade relacionada com Associação de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, ou prática de boxe, por terem consumindo cannabis.
«Esta
decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que
está previsto no regulamento. (Artigo 5)
Depois
de ter tomado decisão de aplicar aos 3 residentes 2 semanas de privação nos
treinos, o J. mostrava claramente que tinha ficado desiludido com a medida e
com ele próprio, assistiu ao treino sempre sentado e a dada altura referiu que
aceita mais depressa o castigo aplicado pela instituição (um mês de atraso no
tempo de tratamento), do que a privação de treinar. Já os outros dois
residentes teceram alguns comentários sobre a medida aplicada, mas lidaram de
outra forma, ou sem grande interesse.»
(Nota de terreno dia 23-08-09).
Dia 29-08-09, o
residente/atleta E. fica privado por tempo indeterminado de treinar ou fazer
parte de qualquer actividade relacionada com a prática de T.D.C.U, por ter
fugido da comunidade e depois de várias tentativas de diálogo, ter continuado
com as mesmas atitudes de âmbito negativo para ele próprio e para com o grupo.
Esta
decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que
está previsto no regulamento. (Artigo 8)
No dia 03-09-09, os
residentes/atletas P. R. e P. L. envolveram-se em confrontos físicos, como tal,
ficam privados de treinar durante uma semana, estas atitudes estão previstas
como negativas para o grupo de praticantes.
«Com
estas medidas e pelo discurso dos intervenientes neste conflito, leva-me a
reflectir que os indivíduos têm mais preocupação com o tempo que vão ficar sem
treinar do que com os castigos aplicados segundo o regulamento da instituição
(1 mês sem sair com o grupo). Ontem o P. L. dia 08-09-09 questionou-me várias
vezes quanto tempo é que ia estar sem treinar, eu respondi que ainda estava a
pensar na medida que devia tomar, o P. L. voltou a insistir que gostava de
saber, então eu disse-lhe que era uma semana sem treinar. Mas que podia correr
no campo de futebol porque no dia 22 de Setembro vamos ter uma demonstração de
defesa pessoal fora da instituição na qual ele vai participar». (Nota de terreno 12-09-09)
«O
residente/atleta E. tomou a atitude que o J. tinha tomado pediu-me se podia
assistir ao treino, eu respondi que sim, mas como ele sabe ainda não pode
participar na actividade física. Ao qual ele respondeu que sabia disso e que
estava a tentar melhorar o comportamento, eu respondi que estava atento a isso.»
(Nota de
terreno.07-09-09)
No dia 23 de Agosto
de 2009 os residentes/atletas M. e F envolveram-se em confrontos físicos com
outros dois residentes. Como está previsto no regulamento das práticas
desportivas, ambos ficaram privados de treinar pelo período de 15 dias.
«Mais
uma vez, a preocupação dos residentes foi procurar saber quanto tempo iriam
ficar afastados dos treinos, quando falei em 15 dias ambos ficaram desiludidos,
perguntaram se podiam voltar a treinar depois de cumprir o que estava
estipulado. Mas não contestaram a medida de forma frontal, aceitaram, porque
pelas palavras dos próprios já estavam a contar que iria ser assim.» (Nota de terreno dia 26-09-09)
Estes são alguns dos exemplos que se deve ter em conta devido às características do desporto de combate boxe ou Kickboxing. Por norma os desentendimentos entre os residentes nada têm a ver com os treinos. São situações de conflito “normais” para um grupo de 28 elementos, com a sua própria personalidade e o dia-a-dia de viverem 24 horas sobre 24 horas num espaço durante 5 a 6 meses. Segundo este autor, «…habitualmente, explica também Sousa Santos, a exclusão vai sendo construída através do estabelecimento de limites e de regras que não poderão ser transgredidas e a partir das quais, arbitrariamente, será estabelecido o que é normal e o que é aceitável e também o que é desviante, portanto proibido…” (Stoer e Cortesão, 2000). Logo, este afastamento dos residentes das práticas desportivas até que provisório, tem como princípio a protecção dos próprios residentes. Ao pensar este projecto deve-se reflectir sobre o que está estabelecido, o que é aceitável e o cumprimento destas normas que estão subjacentes a um regulamento e que o mesmo é aceite por todos os elementos que fazem parte deste desporto na Comunidade Terapêutica. Assim como, para que seja um trabalho com qualidade e que não entre em conflito com as regras da própria instituição. De outra forma, não fazia sentido que as medidas de afastamento provisórias dos treinos não surtissem efeito nos residentes. Por exemplo:
«Comecei
novamente os treinos depois de uma semana e meia sem qualquer actividade. O
ambiente nestes últimos dias tem tido episódios de alguma violência e
agressividade entre residentes, os que treinam e os que não treinam. Ao começar
novamente a treinar só seis elementos fizeram parte, os restantes estão
privados de treinar. O P.L 14 anos; perguntou se já podia treinar, respondi que
não, porque ainda não tinha passado o tempo estipulado. O F 16 anos; fez a mesma pergunta, na qual respondi da mesma forma e
voltei a explicar que só treinam se o comportamento corresponder ao que foi
assinado por ambos no momento da inscrição no clube. Antes de começar a treinar
com os seis residentes estavam dentro do ginásio os restantes que fazem parte
do projecto desportivo, mas tiveram de se retirar. Senti que o fizeram de forma
educada, mas com alguma resistência.» (Nota de terreno dia 04-10-09).
Esta é uma das formas
encontradas, para que o projecto tenha continuidade e que de facto os
residentes assumam as suas responsabilidades como co-actores deste processo, do
qual são a parte integrante e que o próprio projecto se destina a eles
(residentes/atletas).
CONCLUSÃO
Ao terminar este
artigo, pensamos que se deve ter em conta toda a subjectividade com que os
sujeitos escrevem sobre as actividades nas quais participam e a importância que
teve para os mesmos num determinado tempo e espaço. Depois de descrever toda a
dinâmica desportiva, o contexto e a população que faz parte deste projecto, não
poderia ficar de fora a ideia que surge quase de imediato numa grande parte das
pessoas. E a ideia é a seguinte: praticar este tipo de desporto com
toxicodependentes em recuperação? Praticar este tipo de desporto com
delinquentes e numa comunidade terapêutica?
São algumas interrogações que têm o seu sentido e as inerentes preocupações. Estas questões foram largamente discutidas no contexto onde o projecto desportivo decorre, os restantes técnicos (psicólogos/as, assistente social e monitores) tinham sérias dúvidas face a um aumento de actos violentos. Os monitores colocavam directamente questões relacionadas com o desenvolvimento de competências de combate inerentes à defesa pessoal ao boxe e Kickboxing, o que é legítimo. Se os mesmos têm de fazer cumprir regras ao normal funcionamento, cumprir o regulamento e aplicar os respectivos castigos, tinham algum receio que os residentes/atletas usassem alguns conhecimentos que tivessem adquirido para de certa forma resistir e intimidar os monitores. Por esta e outras razões a defesa pessoal deixou de ser ministrada, passando a ser praticado só boxe e kickboxing. Como este trabalho tem um suporte bastante grande de dados empíricos e é fruto de uma observação participante no que respeita à violência os medos iniciais não se concretizaram. Ou seja, continuaram a existir agressões entre residentes, mas as razões das mesmas e o número manteve-se no que a equipa técnica considera “normal”. Todavia, o regulamento específico para residentes/atletas dentro do regulamento geral da Comunidade Terapêutica, serviu não só para quebrar os ímpetos de alguns participantes, como serviu igualmente para a equipa técnica entender que o projecto desportivo tinha regras e que as mesmas são cumpridas, como tivemos oportunidade de observar a partir de algumas notas de terreno.
A
Comunidade Terapêutica “usou” inclusive estas práticas desportivas para dar referências
comportamentais e evolutivas para os tribunais. A titulo de exemplo esta
transcrição é feita a partir de um documento com esses fins:
«Desta
forma o J.M. tem efectuado um trabalho progressivo de análise dos seus
comportamentos e pensamentos, de forma a equilibrar a sua pessoa. Para isso tem
contribuído a prática desportiva, nomeadamente no boxe e no Kickboxing. Todo
este trabalho tem ajudado o residente a superar o facto de ter recaído, bem
como reforçar a sua auto-estima e o seu auto conceito e consequentemente o seu
auto controlo.»
Este parágrafo consta na avaliação que os técnicos psicólogos e assistente social enviaram para dar informação sobre o residente ao tribunal.
Actualmente
estas actividades físicas fazem parte do plano de actividades da Comunidade Terapêutica
formalmente, ou seja do plano anual de actividades de Comunidade Terapeutica. Outra
das grandes questões é se podemos inserir este projecto desportivo numa
vertente complementar de (re) educação ou educação não formal. Segundo este
autor “Usualmente define-se a educação não-formal por uma ausência, em
comparação com a escola, tomando a educação formal como único paradigma, como
se a educação formal escolar também não pudesse aceitar a informalidade, o
“extra-escolar” (Gadotti, (2005:2). importa referir que esta actividade
desportiva é executada com sujeitos com grandes problemas de insucesso escolar
pela via formal. todavia, o mesmo autor refere; “A educação não-formal é mais
difusa, menos hierárquica e menos burocrática os programas de educação não
formal não precisam necessariamente seguir um sistema sequencial hierárquico de
“progressão”. Podem ter duração variável, e podem, ou não, conceder
certificados de aprendizagem” (Gadotti, (2005:2). Os residentes/atletas depois
de todo o esforço despendido para participar nos estágios, ou combates, recebem
os certificados de participação ou outros troféus (medalhas). Assim, existe uma
intencionalidade receber um certificado, mas como o autor refere, não tem de
ser necessariamente assim, o processo de aprendizagem dos sujeitos é feito ao
longo dos treinos. O saber estar, saber ser, saber fazer no âmbito deste
projecto desportivo.
Alguns residentes
recaíram e por consequência voltaram para tratamento, quando questionados sobre
os diplomas, dizem que os têm em casa. Assim como, as revistas onde saíram quer
a nível nacional como a nível internacional destas modalidades, onde constam os
artigos da Associação desportiva.
Em suma, pode-se
concluir, que para os sujeitos estas actividades marcaram um tempo de forma
positiva na vida dos mesmos e que têm documentos com alguma importância que
podem comprovar um trabalho com sentido, num tempo e espaço na vida de cada um
deles. Este trabalho continua a ser desenvolvido e sujeito a todas as mudanças
inerentes a uma Comunidade Terapêutica e com os respectivos residentes (toxicodependentes
em recuperação e jovens delinquentes).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Petrópolis: Editora Vozes LTDA.
Goffman, Erving (2001). Manicómios, prisões e conventos. São
Paulo: Editora Perspectiva.
Neves, Tiago (2008). Entre educativo e penitenciário: Etnografia
de um centro de internamento de menores delinquentes. Porto: Edições
Afrontamento.
Pimenta, Melissa Mattos (2005). Entrevista
com Paul Wills: Tempo social. Revista de Sociologia
da USP, v. 17, n.2. (pp. 320-333)
Silva, M. L. Sandra (1988). Efeitos da actividade física na promoção do
auto-conceito: Dimensões físicas, social e de auto-estima global. Faculdade
de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Portugal.
Stoer, Stephen & Cortesão,
Luísa (2000). Levantando a Pedra. Da
Pedagogia Intermulticultural às Políticas Educativas numa Época de
Transnacionalização. Edições Afrontamento.
Willis, Paul (1977). Aprendendo a Ser trabalhador. Portalegre:
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Tratamento de
Toxicodependências. Retirado em 4 de Outubro,
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PRESIDÊNCIA
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República nº 10/97 de 8 de Março.
Retirado em 9 de Outubro, 2009 de


