sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Projeto desportivo numa Comunidade Terapêutica: Utilização de desportos de combate em contexto de institucionalização.


Comunidade Terapêutica: Utilização de desportos de combate em contexto de institucionalização.


RESUMO

Este artigo dá conta de um projecto desenvolvido numa comunidade terapêutica de regime fechado e que lida com a problemática da toxicodependência. O projecto é de cariz desportivo, nomeadamente defesa pessoal, boxe e Kickboxing. O que se pretende compreender é se este tipo de desporto pode ser considerado como uma mais-valia para a população residente na instituição e se a mesma população encara este projecto contendo em si aspectos de âmbito educativo.      
            Posto isto, este artigo parte da explicação e descrição das actividades, procurando interligar várias temáticas que estão subjacentes aos sujeitos. Adopta-se como recurso testemunhos escritos e notas de terreno, assim como, uma breve contextualização teórica que possa permitir compreender melhor os resultados obtidos e a metodologia utilizada, assim como as conclusões retiradas de todo este processo.

Palavras-chave: Comunidade Terapêutica; Institucionalização; Desportos de Combate; reeducação.

RÉSUMÉ
           
Cet article du compte d'un projet développé dans une communauté thérapeutique de régime fermé interne et qui opere avec la problématique de la toxicomanie. Le projet est de plan sportif, notamment la défense personnel, boxe et Kickboxing. Si qui prétend comprendre c'est si ce type de sport peut être considéré comme une plus-value  et Bénéfiques e pour la population résidante dans l'institution et si le même population envisage ce projet en contenant dans lui aspects de contexte éducatif.    
            Ceci, cet article part de l'explication et de la description des activités, en cherchant interconnecter sieurs thématiques ils que sont sous-jacents aux sujets. Il s'adopte des ressource homologations écrites et notes de terrain, ainsi que, un brèves contextualizacion théoriques qui puisse permettre comprendre mieux les résultats obtenus et la méthodologie utilisée, ainsi que les conclusions retenus.

Mots-clés: Communauté thérapeutique; Institutionnalisation; Sports de combat; rééducation.
Abstract

This article reports a project developed in a therapeutic community secure detention and dealing with the problem of drug addiction. The project is sporty, including self-defense, boxing and kickboxing. The aim is to understand if this kind of sport can be considered as an asset for the living population in the institution and if the same population views this project containing itself aspects in the educative ambit.
That said, this article begins with the explanation and description of activities, searching to connect various themes underlying the subject. As a resource is adopted written testimonials, field notes, as well as a brief theoretical context that would enable better understanding of the results and used methodology, as well as conclusions drawn from all this process.

Keywords: Therapeutic Community; Institutionalization; Combat Sports; reeducation.



INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objectivo tentar perceber como é que a prática desportiva, designadamente os desportos de combate (boxe; kickboxing ou defesa pessoal) são vivenciados pelos utentes de uma Comunidade Terapêutica. A questão de fundo em discussão é a de equacionar se estes desportos podem ser considerados como uma alternativa de reeducação, nomeadamente se a sua vivência é representada significativamente pelos utentes como uma experiência educativa com implicações na transformação de si e das suas relações com os outros e com a própria instituição terapêutica aí seguido.
Portanto, o que se pretende fazer, é dar a conhecer e problematizar um trabalho de cariz desportivo que tem vindo a ser desenvolvido ao longo dos últimos 4 anos e ao longo dos quais tem estado em constante mutação, tendo em consideração que este projecto se vem desenvolvendo com uma população com características muito próprias (os utentes da comunidade tanto estão em contexto de tratamento como de repente o podem abandonar). A organização destas actividades foi pensada e realizada em regime de voluntariado por um elemento que faz parte da equipa técnica da instituição e que aí desempenha as funções como monitor, cujas funções passam por fazer cumprir o regulamento interno da instituição, o cumprimento de horários, a mediação de conflitos existentes entre residentes, entre outras. E tem o apoio do Director da Comunidade Terapêutica (através do Projecto Convívios Fraternos Reconstruir II). A Don Kinguell Academy e a Associação Portuguesa de Técnicas de Defesa e Combate Urbano e com a Arena de Matosinhos, com o seu representante César Moreira.
O facto de este trabalho estar a ser desenvolvido numa Comunidade terapêutica levanta, desde logo, um conjunto de questões, no domínio da ética, da segurança e da educação, As questões em causa merecem uma análise séria fundada em dados empíricos recolhidos através da observação participante e do recurso a testemunhos escritos dos próprios participantes nestas actividades desportivas.


CONTEXTUALIZANDO A INSTITUIÇÃO E O PROJECTO

            A instituição em que este projecto se desenvolve está localizada na Vila de Avanca no distrito de Aveiro. É uma comunidade terapêutica que está vocacionada para lidar com a problemática da toxicodependência. De acordo com a Lei que regulamenta as comunidades terapêuticas estas destinam-se a «assegurar a prestação de cuidados a toxicodependentes que necessitem de internamento prolongado, com apoio psicoterapêutico, sob supervisão psiquiátrica, com vista, designadamente, à criação de condições para a sua reinserção social». (Artigo 5º Comunidades terapêuticas)
               O tempo de tratamento é de aproximadamente 12 meses, sendo que, numa primeira fase os utentes estão 6 meses em regime de internamento fechado, só podendo sair 3 horas por semana acompanhados pelo monitor. Atendendo a que, como se sugere no discurso programático da instituição, qualquer droga, depois de criar dependência no consumidor, geralmente destrói  toda a sua vida nas dimensões física, social, profissional, familiar e religiosa, este programa terapêutico designado Convívios – Fraternos II – Reconstruir, procura, usando o método de tratamento Bio – psicossocial, e ajudado por técnicos preparados e vocacionados para o problema a RECONSTRUIR a vida do toxicómano usando para o efeito técnicas  adaptadas e adequadas, destruindo medos e indiferenças, enfraquecendo ansiedades e reconstruindo a esperança e a alegria de viver. Este programa terapêutico e específico tem a duração de 12 meses e durante todo o seu percurso o utente terá que continuamente fazer opções e a sua liberdade será sempre respeitada. É neste sentido e à semelhança de outros projectos terapêuticos, em que se enquadra esta instituição. A qual podemos pensar como uma instituição total. Com a separação entre os primeiros 6 meses de tratamento em regime fechado, que para este trabalho é o ponto central. A exemplo de como este autor refere: «em primeiro lugar, todos os aspectos da vida são realizados no mesmo local e sob uma única autoridade. Em segundo lugar, cada fase diária da actividade diária do participante é realizada na companhia imediata de um grupo relativamente grande de outras pessoas, todas elas tratadas da mesma forma e obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjunto. Em terceiro lugar, todas as actividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois uma actividade leva, em tempo predeterminado, à seguinte, e toda sequência de actividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários.» (Goffman, 2001:17, 18)
               Tal como em outras instituições semelhantes, todo este trabalho de “vigilância” das tarefas é executado maioritariamente pelos monitores. Sem esquecer que os mesmos são supervisionados hierarquicamente.
Tendo em conta o passado recente dos sujeitos e a sua condição como residentes de uma comunidade terapêutica. Segundo o sociólogo francês Robert Castel (1990) «podemos entender a exclusão social como o ponto máximo atingível no decurso da marginalização, sendo este, um processo no qual o indivíduo se vai progressivamente afastando da sociedade através de rupturas consecutivas com a mesma.»


PROJECTO

Este projecto foi criado em 2005. Inicialmente, um dos objectivos era simplesmente ocupar os tempos livres dos residentes entre as 17 horas e as 19.30 horas principalmente enquanto os residentes estão em tratamento, em que numa primeira fase o prazo médio de permanência na instituição é de 5 a 6 meses. Um outro objectivo prendeu-se com o alargamento da diversidade e da oferta de actividades desportivas na Comunidade Terapêutica.
Tendo em conta que a única prática desportiva existente eram os jogos de futebol quase diários, mas que raramente chegavam ao fim, por diversas razões, tais como: conflitos que se geravam entre elementos da mesma equipa e com os adversários. Com efeito muitos dos problemas e conflitos entre residentes eram levados para o terreno de jogo e consequentemente a maior parte dos jogos de futebol acabava com agressões físicas, sendo que as agressões verbais eram uma constante. Assim, o que deveria ser um sítio onde os residentes pudessem praticar desporto de forma saudável, um espaço de convívio, rapidamente se tornava num local de agressividade.
Como técnico, comecei igualmente a perceber algumas estratégias usadas por alguns residentes para manipular os castigos, nomeadamente os que eram aplicados em casos de agressão física. A título de exemplo refira-se que uma agressão física numa situação fora do campo de futebol podia ser punida com 2 a 3 meses de privação das saídas semanais com o grupo, enquanto, que se a agressão acontecesse num jogo de futebol seria apenas punida com a privação de jogar futebol durante 15 dias a um mês.
Outros objectivos que estiveram subjacentes à promoção destas actividades desportivas passavam por procurar promover actividades (ex. Estágios) onde existisse a possibilidade de interacção com a população civil, policial e elementos de outras modalidades ligadas às artes marciais e desportos de combate. O que constituiria uma ruptura significativa tendo em conta o regime fechado a que estes utentes estão sujeitos, e atendendo a que estas actividades se realizariam fora do contexto de comunidade terapêutica. Por fim, um outro objectivo supunha a possibilidade dos residentes, depois de acabarem o seu tratamento, poderem dar continuidade a estas actividades desportivas em ginásios, academias de desportos de combate, ou desenvolver outras actividades físicas que os indivíduos considerassem importantes para si.
Assim, tendo em mente, estes objectivos, decidi com um Mestre de artes de combate iniciar com um número relativamente pequeno de residentes os treinos de defesa pessoal e com o treinador de boxe Fenando Kinguell. Como estes treinos requerem muita disciplina, cumprimento rígido de horários, atitude positiva face ao grupo, esforço físico e alguma técnica, (de salientar que os primeiros indivíduos chegavam a tratamento numa condição física altamente debilitada) esta prática permitiu inicialmente o desenvolvimento do corpo e resistência. Com o passar do tempo criou-se um grupo de 15 indivíduos a treinar 3 vezes por semana. Este grupo era constituído só por toxicodependentes em recuperação, sendo que um dos elementos era menor de idade. Todo este trabalho se enquadrava no pressuposto que estas actividades poderiam ser consideradas actividades lúdicas, terapêuticas ou educativas.


DINÂMICA DOS TREINOS:  


     Os treinos começam às 17.30 horas em ponto e como o ginásio onde são feitos os exercícios é simultaneamente a sala de terapia de grupo e sala de convívio, às 17.30 deve estar arrumada e preparada para os treinos. Toda a arrumação inicial e final do espaço é feita em grupo com a participação de todos. O residente que não chegar a horas tem de fazer cerca de 20 a 30 flexões, se repetir posteriormente o atraso o grupo faz em conjunto o mesmo número de flexões. O que se pretende com esta medida é estabelecer regras comuns de funcionamento procurando que qualquer residente que chega atrasado compreenda as implicações e as responsabilidades de uma actividade de grupo. Não são igualmente permitidos brincos, pulseiras, fios ao pescoço, por questões de segurança para o próprio residente, tendo em conta o desporto em causa. Todo este ritual começa com a saudação muito comum em muitos estilos de artes marciais, que é baixar a cabeça e dizer OSS é uma saudação de respeito na sala de treino, para com o instrutor e respectivos colegas de treino, esta saudação é sempre feita no inicio e fim do treino. Mesmo no decorrer do treino os residentes devem ter regras de conduta que visam promover a entreajuda e respeito pelo outro.
            Para além destes aspectos já mencionados e a forma como foi organizada esta actividade, tinha subjacente uma ideia central: quebrar a rotina fazer algo de novo e trabalhar em conjunto para que os residentes pudessem usufruir de mais algumas saídas ao exterior da Comunidade Terapêutica para participarem numa iniciativa de cariz no âmbito desportivo, nomeadamente em estágios de defesa pessoal e em torneios de kickboxing e boxe, rompendo claramente com o sistema rígido e as normas do dia-a-dia passado em comunidade. 


Transformações de si:

                                                                                                                                 
                Apresentada toda a dinâmica inerente ao projecto desportivo, propomo-nos a pensar este tipo de modalidade desportiva sob o ponto de vista de uma possível transformação do indivíduo, através da análise dos testemunhos dos utentes da Comunidade Terapêutica que se envolveram nesta prática desportiva. Segundo, Paul Willis, «A vida quotidiana implica uma produção humana, habitual, de sentido. Os seres humanos são levados não apenas à luta pela sobrevivência por meio da produção e da reprodução das condições materiais de existência, mas também por intermédio da compreensão do mundo e de seu lugar nele. Em outras palavras, do entendimento de si mesmos em seu próprio mundo cultural…» (in entrevista, 2005). É neste sentido que a partir deste momento começamos a escrever sobre residentes/atletas. Procuramos de uma forma clara que o sujeito se aproprie não só de uma condição de residente numa Comunidade Terapêutica, mas tenha igualmente a condição de atleta. Nesta perspectiva surge este testemunho do A.F de 28 anos.

«… Sou um praticante inicial, mas julgo que com o decorrer do tempo, com trabalho e eficácia suponho que poderei ir mais além. Na questão do estágio em que participei, para mim foi uma grande experiência na minha vida. Nesse estágio em que participei, eu e outros praticantes, noto que estou a começar a conhecer-me melhor e a gostar mais de mim e também a integrar-me a nível social com outras pessoas…» (26 Abril 2008).

«Assim podemos considerar que é o resultado dos julgamentos que o sujeito faz acerca de si próprio, de que decorrem atribuições de positivo ou de negativo, perante os aspectos considerados relevantes da sua identidade. A auto-estima encontra-se, deste modo, associada aos fenómenos da compensação ou de descompensação emocional do indivíduo» (Vaz Serra, 1986, cit in Silva, 1998)
Desta forma a auto-estima é uma das questões que mais vezes é referida pelos residentes/atletas, tanto de forma explícita, como implícita. Assim, o N.G de 25 anos refere:

«… Para mim esta passagem pelo kickboxing e boxe  foi fantástica. Pois elevou muito a minha auto-estima e a gostar mais do meu corpo …» (17 de Junho de 2009).

Outro residente/atleta, F.B de 17 anos escreve:

«… Este desporto fez-me sentir cem por cento bem: interiormente, psicologicamente, faz-me sentir mais seguro comigo…» (17 de Junho de 2009).







Podemos considerar igualmente importante e que é mencionado nos vários registos que está relacionado com o desempenho que os residentes/atletas mostram nos estágios ou nos combates de Kickboxing. Segundo este autor: «Quando um indivíduo desempenha um papel exige implicitamente dos seus espectadores que levem a sério a impressão que neles procura suscitar» (Goffman (1993). Os sujeitos quando vão desempenhar as suas funções para as quais treinaram, fazem-no no intuito de mostrar o que sabem fazer e fazem-no com seriedade.
O residente H.C, 19 anos, dá-nos conta de um discurso em que podemos inferir a atitude do mesmo face ao empenho e o desempenho, na sua reflexão menciona que:

«…foi uma das melhores sensações que já tive, estar rodeado de alguns mestres de artes diferentes e a vontade que eles tinham para ensinar e a mesma vontade que alguns tinham em receber o que nos transmitiam, aquele ambiente de estarmos ali todos para o mesmo, com esforço, força e vontade é daquelas sensações únicas e boas que quase não há palavras para o descrever…» (13 Dezembro 2008).

Numa outra dimensão e Segundo este autor, «o auto conceito tem ligado a si aspectos cognitivos, afectivos e motores que o definem. A capacidade que o ser humano tem de se auto-analisar, observando as suas próprias acções e comportamentos específicos do dia-a-dia, assim como os comportamentos dos outros em relação a si, contribuem para a formação do auto-conceito. Esta formação não é concretizada apenas pela simples enumeração dos comportamentos observáveis. Resulta antes de um processo simbólico, em que determinada estrutura pessoal de forma com o auxílio da linguagem, que atribui designações a classes de comportamentos, procurando-as definir e englobar» (Vaz Serra, 1986, cit in Silva, 1988)
               Importa por isso, reflectir sobre a dimensão que o indivíduo dá a si próprio, relativamente à sua auto-análise, O B.R escreve:

«…comecei a sentir-me mais capaz, mais seguro do que era porque sempre fui uma pessoa que nunca acreditei que era capaz e agora está á vista…» (28 de Abril de 2008)

Os hábitos de higiene são igualmente alvo de preocupação e mudança, a maior parte dos residentes/ atletas entra na Comunidade Terapêutica com algum défice de hábitos de higiene, uma das regras é o cuidado que os sujeitos devem ter quando vão treinar, devido ao esforço físico que vão realizar. Esta nota de terreno ilustra essa preocupação por parte do instrutor:

«Ao longo dos treinos sinto a necessidade de alertar não de uma forma muito directa, que os atletas devem ter cuidado com a higiene pessoal, vamos ter uma 1 hora e meia de treino, onde se vai transpirar muito. Assim, todos os atletas devem apresentar-se na sala de treino com os pés lavados, justifico esta medida pelo uso dos colchões para exercícios no chão e o desconforto que para mim é perceber que alguns atletas não têm cuidado com a sua higiene pessoal.» (Nota de terreno 02-01-08).  

Várias vezes, este tipo de diálogo é feito em grupo sem falar para ninguém em particular, mas é comum acontecer em quase todos os grupos que foram variando ao longo do tempo.






Transformações na relação com a instituição (relação com as normas da instituição, relação com o tratamento)

Neste outro testemunho, aparece um dos motivos para a inclusão deste desporto neste lugar específico e que certa forma é semelhante a outros testemunhos. Assim, o B.R escreve;

«… Quanto a mim, começar a ir ao treino deu-me mais motivação tanto para continuar o tratamento, como para levar as aulas até ao fim…» (28 de Abril 2008)

Este é um dos vários factores que contribuem para que existam dentro da instituição estas actividades. Tendo em conta o que foi escrito na introdução no que respeita à dinâmica de uma instituição total e tudo o que lhe está subjacente.
Depois de todas as tarefas rotineiras do dia-a-dia, pelo menos 3 vezes por semana os sujeitos podem usufruir de algo, neste caso os treinos que nada têm a ver com o contexto e a inerente repetição de actividades. Relativamente às normas instituídas pelo regulamento da comunidade terapêutica, está muito próximo do que Tiago Neves refere no seu trabalho: «… Certamente que os educandos fazem um aproveitamento oportunista de lacunas e falhas ocasionais de vigilância da equipa supervisora. Na verdade, porém, uma boa parte das oportunidades mínimas surge em resultado sistemático dos educandos para a sua criação…» (Neves, Tiago (2008:166). Na comunidade terapêutica a relação dos residentes perante as normas instituídas são largamente quebradas, desde o incumprimento de horários, até à introdução de drogas ou álcool que eventualmente tenham oportunidade para o fazer. É o jogo de “rato” e do “gato” em que cada um sabe o que tem de fazer e o lugar que ocupa residentes e monitores. Todavia, num universo de 28 residentes alguns optam por cumprir minimamente com o que está instituído e é normativo. Porém, nas actividades desportivas existe um regulamento interno ao qual os residentes estão sujeitos, mas podemos pensar numa relação diferente face ao mesmo regulamento. Assim, passo a transcrever um dos episódios que aconteceram em que o regulamento do projecto desportivo foi usado:



No dia 21-08-09 os residentes/atletas W, E e J. ficaram privados durante 2 semanas de treinar qualquer tipo de actividade relacionada com Associação de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, por terem consumindo cannabis. 

«Esta decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que está previsto no regulamento. (Artigo 5)
Depois de ter tomado decisão de aplicar aos 3 residentes 2 semanas de privação nos treinos, o J. mostrava claramente que tinha ficado desiludido com a medida e com ele próprio, assistiu ao treino sempre sentado e a dada altura referiu que aceita mais depressa o castigo aplicado pela instituição (um mês de atraso no tempo de tratamento), do que a privação de treinar. Já os outros dois residentes teceram alguns comentários sobre a medida aplicada, mas lidaram de outra forma, ou sem grande interesse.» (Nota de terreno dia 23-09-09).

Esta nota de terreno vai ser novamente usada mais à frente. Importa porém perceber a relação que os residentes/atletas têm com as normas e as medidas punitivas que são impostas pela Comunidade Terapêutica. E as medidas que são tomadas nos que respeita ao projecto desportivo. Segundo o sujeito a medida aplicada pela instituição tem menos valor do que a medida tomada pelo instrutor. De referir que este regulamento interno inerente à prática desportiva foi discutido e aceite por todos os sujeitos. Logo, a aceitação da medida de privação de treinar é aceite como estava estabelecido e não como uma medida imposta na qual os sujeitos não têm nenhuma influência ou participação.

Transformações nas Relações interpessoais:

Como já foi referido, importava perceber como é que os residentes/atletas se integravam depois de devidamente preparados técnica e fisicamente nos estágios que eram feitos pela associação desportiva. O princípio foi levar os indivíduos não como residentes, mas como atletas, para que tal fosse possível existiam algumas regras básicas, a primeira era a forma como me tratavam, ou seja, quando fossemos para os estágios acabava a relação monitor/residente e começava a relação instrutor/atleta.
Segundo este autor, «Uma interacção pode ser definida como toda interacção que ocorre em qualquer ocasião, quando um conjunto de indivíduos, uns se encontra na presença imediata dos outros…» (Goffman, 1983:23). Foi neste sentido que procuramos que os residentes interagissem com outras pessoas que não sabiam de onde vinham os residentes e qual a situação em que se encontravam (Comunidade Terapêutica).
O B.F 22 anos, refere:

«… O estágio para mim, foi muito interessante pois apreendi coisas novas e conheci outro tipo de gente com outros tipos de modalidades…» (26 Abril 2008).








Estes estágios são sempre realizados em conjunto com vários elementos de outras artes marciais, incluindo alguns elementos das forças de segurança. Quando vamos para estas actividades os residentes não sabem quem é quem, o que sabem é que vão estar outros atletas, importa salientar através de mais esta transcrição o valor que o residente/atleta dá ao evento. O A.P 17 anos escreve;

«… Gostei muito, conheci novas pessoas, convivi com eles e praticamos desporto juntos… foi altamente…» (26 Abril 2008).

Por outro lado os atletas que não fazem parte da Comunidade terapêutica também não sabem de onde vêm estes residentes/atletas.
Contudo, existe sempre a preocupação com a imprevisibilidade do que possa acontecer nestas actividades no exterior da Comunidade Terapêutica, nesta nota de terreno dá-se conta do que é referido:

    «Depois de preparar todos os residentes, tanto fisicamente, como psicologicamente para o estágio, tenho algum medo sobre como irá decorrer o evento. Será que algum residente vai aproveitar para fugir? Terão acesso a drogas? Será que vão estar a altura e que não vão ter comportamentos negativos, como indisciplina, etc.» (Nota terreno 22-04-08).
Este tipo de preocupação é constante. Todavia;
«O estágio correu de forma espectacular, todos os residentes estiveram à altura tanto fisicamente como em saber estar em grupo. Fico feliz pelo facto de o diploma de participação que ganharam foi de facto ganho e não um mero prémio de estar por estar.» (Nota de terreno 26-04-08).

Esta nota de terreno esteve sempre presente em todas as actividades em que participamos. Assim como, os sentimentos de quem ficava com a responsabilidade de levar os residentes aos eventos e que tudo corresse da melhor forma possível para que fosse justificada a continuidade à direcção e equipa técnica da Comunidade Terapêutica.
Na relação com redes exteriores à Comunidade Terapêutica, importa salientar que todos os residentes/atletas são membros associados da Associação Portuguesa de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, beneficiando de todos os direitos previstos no regulamento da associação, assim como os respectivos deveres. Maioritariamente, os sujeitos fazem parte desta associação, sendo que oito deles são atletas federados na Federação Portuguesa de Kickboxing e MuayThai e Boxe. Para poderem competir nas galas em que participaram e nas quais tinham de estar inscritos neste caso na Federação Portuguesa de Kickboxing e MuayThai. O que confere uma sensação de pertença a outras instituições que não passem só pela condição de residentes de uma Comunidade Terapêutica.



MUDANÇA DE RESIDENTES E PROBLEMÀTICAS:

Contudo, este trabalho deve ser analisado com duas populações com características diferentes. Num primeiro momento o trabalho é feito só com indivíduos em tratamento inerente à toxicodependência.
Até que a realidade da população que é recebida sofreu o que considero uma grande mutação em termos de problemáticas. Ou seja, a partir do princípio do ano de 2009 a Comunidade Terapêutica tem como residentes não só indivíduos toxicodependentes, mas também um número elevado de menores de idade. Toda esta realidade teve igualmente mutações nas práticas desportivas e mais concretamente com a dinâmica a desenvolver dentro dos treinos e fora deles dentro da Comunidade Terapêutica. Desde logo, o interesse na defesa pessoal. Chamou-nos atenção o que os jovens faziam depois dos treinos uns aos outros em actos de brincadeira.
Para contextualizar: a defesa pessoal que é ministrada tem como base, o boxe, as luxações, estrangulamentos, imobilizações e a luta de rua. Se com os elementos toxicodependentes estas práticas já colocavam sérias duvidas e interrogações, com os menores de idade acabamos por confirmar que este não era o melhor caminho nem tinha fundamento ético e da própria segurança, tanto para os residentes como mais tarde na saída da comunidade e na inserção nos seus locais de onde são oriundos. Assim, começaram a ser ministrados treinos completamente diferentes, mais ligados à preparação física, boxe e Kickboxing. Por se Considerar que estas práticas se inserem mais no âmbito desportivo e de competição.





Os resultados foram igualmente positivos como se pode observar através destes testemunhos. Os dois residentes/atletas em causa participaram numa gala internacional de Kickboxing na Arena de Matosinhos. 

Assim, o N.G 25 anos refere

«… Para mim esta passagem pelo kickboxing foi fantástica. Pois elevou muito a minha auto-estima e a gostar mais do meu corpo (…) a minha inclusão social também foi muito positiva pois o gosto pelo combate fez com que a inclusão social entre nós seja mais fácil (…) quanto ao combate senti algo que não consigo bem passar para o papel, só sei que a sensação de calcar um ringue é formidável e me fez sentir uma pessoa sem qualquer tipo de problema social…» (17 de Junho de 2009).

Outro dos residentes/atletas, este mais jovem e um dos primeiros menores de idade a entrar na comunidade terapêutica. Faz esta reflexão sobre o que foi a gala e a sua participação como atleta na mesma. O F.C. 17 anos escreve sobre este dia e experiência:

«Para mim ter começado a praticar este desporto foi muito bom e porquê? Porque é uma ideia que já tenho há muito tempo. (…) Este desporto fez-me sentir cem por cento bem: interiormente, psicologicamente, faz-me sentir mais seguro comigo mesmo e ao mesmo tempo com mais respeito, tanto para comigo como para com os outros. (…) Desde que comecei este desporto eu já ganhei mais corpo e mais personalidade. (…) O que se sente quando se vai a combate não é medo, comigo foi assim, eu senti muita curiosidade, descoberta e adrenalina. È praticamente isto que uma pessoa sente quando gosta realmente do que faz…» (21 de Junho de 2009).

São alguns destes testemunhos que evidenciam alguns dos benefícios destes desportos em contexto de tratamento e ao mesmo tempo os residentes/atletas puderem participar em algo que fazia parte do imaginário. Como escrevi antes, estes dois residentes combateram com atletas amadores mas já com longa experiência no desporto de combate e, não menos importante num local (Arena de Matosinhos) que neste momento é dos locais onde se disputam vários títulos nacionais e internacionais.






A IMPORTÂNCIA DE UM REGULAMENTO INTERNO:

Todavia, no inicio desta actividade desportiva, um dos factores que contribuiu para a decisão de implementar este projecto na Comunidade Terapêutica, foi tentar compreender se com as regras muito especificas a que este tipo de desporto eventualmente está sujeito, os residentes em contexto de tratamento conseguiam transportar a mudança de comportamentos para a sua vida em comunidade; ou seja praticar desporto, não consumir drogas e não ter atitudes violentas depois de aprender algumas técnicas de combate. Assim, foi adaptado o regulamento interno da Associação Portuguesa de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, assim como o trabalho em equipa com o treinador Fernando Kinguell, ao funcionamento das regras que considero como base neste trabalho. Sem dúvida que o que tenciono trabalhar está relacionado com os pontos 5 e 8 do regulamento Interno.
«Ponto 5º O consumo de substâncias proibidas ou alteradoras de comportamento, assim, como o uso excessivo de álcool, levará à exclusão ou não, estando dependente da avaliação da direcção;
Ponto 8º Tendo em conta a situação actual dos atletas de T.D.C.U do Dojo de Avanca, os mesmos se usarem atitudes agressivas, violentas ou de má conduta, estão sujeitos a ficar privados dos treinos e qualquer outra actividade relacionada. Será o instrutor a determinar a sanção a aplicar;»
            O mesmo foi aceite e assinado pelos residentes/atletas. Ficam aqui alguns exemplos (notas de terreno) de situações que ocorreram em que face a algumas atitudes dos residentes, os pontos 5 e 8 que constam no regulamento a que estão sujeitos tiveram ser tomadas algumas medidas. Importava da mesma forma perceber como reagiam às medidas que foram tomadas.


No dia 21-08-09 os residentes/atletas W, E e J. ficaram privados durante 2 semanas de treinar qualquer tipo de actividade relacionada com Associação de Técnicas de Defesa e Combate Urbano, ou prática de boxe, por terem consumindo cannabis. 

«Esta decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que está previsto no regulamento. (Artigo 5)
Depois de ter tomado decisão de aplicar aos 3 residentes 2 semanas de privação nos treinos, o J. mostrava claramente que tinha ficado desiludido com a medida e com ele próprio, assistiu ao treino sempre sentado e a dada altura referiu que aceita mais depressa o castigo aplicado pela instituição (um mês de atraso no tempo de tratamento), do que a privação de treinar. Já os outros dois residentes teceram alguns comentários sobre a medida aplicada, mas lidaram de outra forma, ou sem grande interesse.» (Nota de terreno dia 23-08-09).

Dia 29-08-09, o residente/atleta E. fica privado por tempo indeterminado de treinar ou fazer parte de qualquer actividade relacionada com a prática de T.D.C.U, por ter fugido da comunidade e depois de várias tentativas de diálogo, ter continuado com as mesmas atitudes de âmbito negativo para ele próprio e para com o grupo.
Esta decisão foi tomada pelo instrutor do Dojo de Avanca em conformidade com o que está previsto no regulamento. (Artigo 8)

No dia 03-09-09, os residentes/atletas P. R. e P. L. envolveram-se em confrontos físicos, como tal, ficam privados de treinar durante uma semana, estas atitudes estão previstas como negativas para o grupo de praticantes. 

«Com estas medidas e pelo discurso dos intervenientes neste conflito, leva-me a reflectir que os indivíduos têm mais preocupação com o tempo que vão ficar sem treinar do que com os castigos aplicados segundo o regulamento da instituição (1 mês sem sair com o grupo). Ontem o P. L. dia 08-09-09 questionou-me várias vezes quanto tempo é que ia estar sem treinar, eu respondi que ainda estava a pensar na medida que devia tomar, o P. L. voltou a insistir que gostava de saber, então eu disse-lhe que era uma semana sem treinar. Mas que podia correr no campo de futebol porque no dia 22 de Setembro vamos ter uma demonstração de defesa pessoal fora da instituição na qual ele vai participar». (Nota de terreno 12-09-09)

«O residente/atleta E. tomou a atitude que o J. tinha tomado pediu-me se podia assistir ao treino, eu respondi que sim, mas como ele sabe ainda não pode participar na actividade física. Ao qual ele respondeu que sabia disso e que estava a tentar melhorar o comportamento, eu respondi que estava atento a isso.» (Nota de terreno.07-09-09)

No dia 23 de Agosto de 2009 os residentes/atletas M. e F envolveram-se em confrontos físicos com outros dois residentes. Como está previsto no regulamento das práticas desportivas, ambos ficaram privados de treinar pelo período de 15 dias.

«Mais uma vez, a preocupação dos residentes foi procurar saber quanto tempo iriam ficar afastados dos treinos, quando falei em 15 dias ambos ficaram desiludidos, perguntaram se podiam voltar a treinar depois de cumprir o que estava estipulado. Mas não contestaram a medida de forma frontal, aceitaram, porque pelas palavras dos próprios já estavam a contar que iria ser assim.» (Nota de terreno dia 26-09-09)


Estes são alguns dos exemplos que se deve ter em conta devido às características do desporto de combate boxe ou Kickboxing. Por norma os desentendimentos entre os residentes nada têm a ver com os treinos. São situações de conflito “normais” para um grupo de 28 elementos, com a sua própria personalidade e o dia-a-dia de viverem 24 horas sobre 24 horas num espaço durante 5 a 6 meses. Segundo este autor, «…habitualmente, explica também Sousa Santos, a exclusão vai sendo construída através do estabelecimento de limites e de regras que não poderão ser transgredidas e a partir das quais, arbitrariamente, será estabelecido o que é normal e o que é aceitável e também o que é desviante, portanto proibido…” (Stoer e Cortesão, 2000). Logo, este afastamento dos residentes das práticas desportivas até que provisório, tem como princípio a protecção dos próprios residentes. Ao pensar este projecto deve-se reflectir sobre o que está estabelecido, o que é aceitável e o cumprimento destas normas que estão subjacentes a um regulamento e que o mesmo é aceite por todos os elementos que fazem parte deste desporto na Comunidade Terapêutica. Assim como, para que seja um trabalho com qualidade e que não entre em conflito com as regras da própria instituição. De outra forma, não fazia sentido que as medidas de afastamento provisórias dos treinos não surtissem efeito nos residentes. Por exemplo:

«Comecei novamente os treinos depois de uma semana e meia sem qualquer actividade. O ambiente nestes últimos dias tem tido episódios de alguma violência e agressividade entre residentes, os que treinam e os que não treinam. Ao começar novamente a treinar só seis elementos fizeram parte, os restantes estão privados de treinar. O P.L 14 anos; perguntou se já podia treinar, respondi que não, porque ainda não tinha passado o tempo estipulado. O F 16 anos; fez a mesma pergunta, na qual respondi da mesma forma e voltei a explicar que só treinam se o comportamento corresponder ao que foi assinado por ambos no momento da inscrição no clube. Antes de começar a treinar com os seis residentes estavam dentro do ginásio os restantes que fazem parte do projecto desportivo, mas tiveram de se retirar. Senti que o fizeram de forma educada, mas com alguma resistência.» (Nota de terreno dia 04-10-09).

Esta é uma das formas encontradas, para que o projecto tenha continuidade e que de facto os residentes assumam as suas responsabilidades como co-actores deste processo, do qual são a parte integrante e que o próprio projecto se destina a eles (residentes/atletas).

CONCLUSÃO

Ao terminar este artigo, pensamos que se deve ter em conta toda a subjectividade com que os sujeitos escrevem sobre as actividades nas quais participam e a importância que teve para os mesmos num determinado tempo e espaço. Depois de descrever toda a dinâmica desportiva, o contexto e a população que faz parte deste projecto, não poderia ficar de fora a ideia que surge quase de imediato numa grande parte das pessoas. E a ideia é a seguinte: praticar este tipo de desporto com toxicodependentes em recuperação? Praticar este tipo de desporto com delinquentes e numa comunidade terapêutica?
               







         

         São algumas interrogações que têm o seu sentido e as inerentes preocupações. Estas questões foram largamente discutidas no contexto onde o projecto desportivo decorre, os restantes técnicos (psicólogos/as, assistente social e monitores) tinham sérias dúvidas face a um aumento de actos violentos. Os monitores colocavam directamente questões relacionadas com o desenvolvimento de competências de combate inerentes à defesa pessoal ao boxe e Kickboxing, o que é legítimo. Se os mesmos têm de fazer cumprir regras ao normal funcionamento, cumprir o regulamento e aplicar os respectivos castigos, tinham algum receio que os residentes/atletas usassem alguns conhecimentos que tivessem adquirido para de certa forma resistir e intimidar os monitores. Por esta e outras razões a defesa pessoal deixou de ser ministrada, passando a ser praticado só boxe e kickboxing. Como este trabalho tem um suporte bastante grande de dados empíricos e é fruto de uma observação participante no que respeita à violência os medos iniciais não se concretizaram. Ou seja, continuaram a existir agressões entre residentes, mas as razões das mesmas e o número manteve-se no que a equipa técnica considera “normal”. Todavia, o regulamento específico para residentes/atletas dentro do regulamento geral da Comunidade Terapêutica, serviu não só para quebrar os ímpetos de alguns participantes, como serviu igualmente para a equipa técnica entender que o projecto desportivo tinha regras e que as mesmas são cumpridas, como tivemos oportunidade de observar a partir de algumas notas de terreno.
               A Comunidade Terapêutica “usou” inclusive estas práticas desportivas para dar referências comportamentais e evolutivas para os tribunais. A titulo de exemplo esta transcrição é feita a partir de um documento com esses fins:

 «Desta forma o J.M. tem efectuado um trabalho progressivo de análise dos seus comportamentos e pensamentos, de forma a equilibrar a sua pessoa. Para isso tem contribuído a prática desportiva, nomeadamente no boxe e no Kickboxing. Todo este trabalho tem ajudado o residente a superar o facto de ter recaído, bem como reforçar a sua auto-estima e o seu auto conceito e consequentemente o seu auto controlo.»  


Este parágrafo consta na avaliação que os técnicos psicólogos e assistente social enviaram para dar informação sobre o residente ao tribunal.
            Actualmente estas actividades físicas fazem parte do plano de actividades da Comunidade Terapêutica formalmente, ou seja do plano anual de actividades de Comunidade Terapeutica. Outra das grandes questões é se podemos inserir este projecto desportivo numa vertente complementar de (re) educação ou educação não formal. Segundo este autor “Usualmente define-se a educação não-formal por uma ausência, em comparação com a escola, tomando a educação formal como único paradigma, como se a educação formal escolar também não pudesse aceitar a informalidade, o “extra-escolar” (Gadotti, (2005:2). importa referir que esta actividade desportiva é executada com sujeitos com grandes problemas de insucesso escolar pela via formal. todavia, o mesmo autor refere; “A educação não-formal é mais difusa, menos hierárquica e menos burocrática os programas de educação não formal não precisam necessariamente seguir um sistema sequencial hierárquico de “progressão”. Podem ter duração variável, e podem, ou não, conceder certificados de aprendizagem” (Gadotti, (2005:2). Os residentes/atletas depois de todo o esforço despendido para participar nos estágios, ou combates, recebem os certificados de participação ou outros troféus (medalhas). Assim, existe uma intencionalidade receber um certificado, mas como o autor refere, não tem de ser necessariamente assim, o processo de aprendizagem dos sujeitos é feito ao longo dos treinos. O saber estar, saber ser, saber fazer no âmbito deste projecto desportivo.  
Alguns residentes recaíram e por consequência voltaram para tratamento, quando questionados sobre os diplomas, dizem que os têm em casa. Assim como, as revistas onde saíram quer a nível nacional como a nível internacional destas modalidades, onde constam os artigos da Associação desportiva. 
Em suma, pode-se concluir, que para os sujeitos estas actividades marcaram um tempo de forma positiva na vida dos mesmos e que têm documentos com alguma importância que podem comprovar um trabalho com sentido, num tempo e espaço na vida de cada um deles. Este trabalho continua a ser desenvolvido e sujeito a todas as mudanças inerentes a uma Comunidade Terapêutica e com os respectivos residentes (toxicodependentes em recuperação e jovens delinquentes).




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

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Goffman, Erving (2001). Manicómios, prisões e conventos. São Paulo: Editora Perspectiva.

Neves, Tiago (2008). Entre educativo e penitenciário: Etnografia de um centro de internamento de menores delinquentes. Porto: Edições Afrontamento.

Pimenta, Melissa Mattos (2005). Entrevista com Paul Wills: Tempo social. Revista de Sociologia da USP, v. 17, n.2. (pp. 320-333)

Silva, M. L. Sandra (1988). Efeitos da actividade física na promoção do auto-conceito: Dimensões físicas, social e de auto-estima global. Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Portugal.

Stoer, Stephen & Cortesão, Luísa (2000). Levantando a Pedra. Da Pedagogia Intermulticultural às Políticas Educativas numa Época de Transnacionalização. Edições Afrontamento.

Willis, Paul (1977). Aprendendo a Ser trabalhador. Portalegre: Artes Médicas, l991.
  
Castell, Robert (1990). Exclusões Sociais. Retirado em 24 de Setembro, 2009 de http://pt.wikipedia.org/wiki/Exclus%C3%A3o_socialhttp://pt.wikipedia.org/wiki/Exclus%C3%A3o_social
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Gadotti, Moacir (2005). A Questão da educação formal/não-formal. Retirado em 27 de Outubro, 2009 de http://www.paulofreire.org/twiki/pub/Institu/Subúnstitucional1203023491IE003ps002Educação_formal_não_formal_2005.pdf